10/02/2018

Estupidez | ferida da infância

– Você é burro!
– Fala direito, moleque. 
– Vê se aprende a falar, menina.
– Você não sabe nada!
– Não entendi nada do que você falou.
– Aprenda com seu irmão.
– Cala a boca!
– Não sei quando você vai aprender.

Se a criança ouve palavras como estas, dentro dela abre uma ferida enorme. É o mesmo que ser chamada de estúpida ou não inteligente porque ainda não consegue se expressar de forma inteligível. É uma provocação que causa dor profunda como a chaga, uma lesão que não cicatriza.

Isso acontece quando os adultos que convivem com a criança na primeira infância não são capazes de ouvir e dar a devida atenção a ela. Não respeitam o seu tempo e o seu jeito de ser. Não são minimamente sensíveis às suas reais condições naquele momento. Não entendem que não é porque essa e aquela criança ‘se comunica direitinho’ que toda criança tem que se comunicar igual. 

Na vida adulta, essa ferida aberta e a dor profunda causada por ela tendem a levar a pessoa ao medo de expressar seus sentimentos e pensamentos, especialmente se eles desagradam os outros. 

De fato, ela tem medo de não conseguir se explicar, de ser clara e objetiva. Então, busca palavras e conceitos, fala demais tentando racionalizar tudo, mas o que quase sempre consegue é tão somente repetir o senso comum, o acho-que-achei-que-tinha-achado. É possível, inclusive, que tenha necessidade de mentir, especialmente para si mesma, na tentativa de sobreviver à pressão mental.

Vale dizer: a pessoa acredita que só será amada se conseguir ter e dar uma explicação pra tudo.

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